| Preciso ser honesta com você: o seu relato sobre inseguranças em relação à própria arte é algo que você vai sentir agora e vai sentir daqui a 50 anos, independentemente de onde você esteja na carreira. Sendo só um hobby, ou algo que você transformou em profissão, as dúvidas irão persistir. E eu posso te dar conselhos, dicas, ferramentas, mas a verdade é que, de tempos em tempos, me pego pensando as mesmas coisas. Tendo as mesmas crises. E tentando lidar com elas da melhor forma possível. Mas uma pergunta no seu relato me chamou a atenção. “Será que eu realmente tenho algo a dizer?” Tenho minha própria jornada em relação a isso. Eu sou escritora. No começo, na pré-adolescência, escrevia porque escrever era um refúgio. Um mundo mágico onde coisas legais aconteciam, onde eu tinha controle, enquanto a vida real se mostrava muitas vezes difícil e tediosa. Não tinha pressão, um leitor hipotético a agradar: éramos só eu, meu notebook e meus personagens. Eu queria me agradar. Queria mergulhar naquele faz de conta. Conforme fui crescendo e me profissionalizando, escrever deixou de ser um porto seguro, uma distração, e se tornou um poço de inseguranças. O número de leitores começou a crescer, eu comecei a ganhar algum dinheiro com isso, a assinar contratos e a prometer novas histórias, e essa pressão aumentou. Será que eu tinha algo a dizer? Será que as minhas histórias de amor significavam algo, será que os meus livros jovens e de comédia tinham alguma profundidade? Ou será que o que eu escrevia era vazio, raso e descartável? Por muito tempo, naveguei nessas dúvidas. Tentava encontrar um significado maior para a história que eu queria contar, passava meses paralisada, sem conseguir escrever uma linha sequer, produzindo roteiros e escaletas muito bem amarrados e coesos, procurando sentido e intenção, quando, no fundo da minha mente, uma voz me dizia: “Só senta e escreve”. Depois de anos nessa angústia, ganhei de presente o livro do Stephen King, Sobre a escrita, uma mistura de livro didático e autobiografia. Comecei a leitura achando que aprenderia sobre pontos de virada, construção de universos de terror e ferramentas de escrita, mas o que encontrei foi um mergulho nessa mesma dúvida: qual o significado dos meus livros? Qual a moral da história? Qual a lição a ensinar? Um livro precisa mesmo ter uma lição, um caráter moralizante? Ou ele pode existir apenas como uma história? Caramba, que alívio! Se até o Stephen King tem essas dúvidas, quem sou eu para achar que não as teria? Para a minha grata surpresa, Stephen King também me deu as respostas que eu tanto buscava, e fique comigo, porque o que eu vou dizer agora pode ser bastante anticlimático: ele também não sabia. Ele queria apenas contar uma história. O significado? A voz, o ponto de vista, o olhar, a moral? Depois de muito se questionar, ele entendeu que isso surgia depois que ele escrevia o último ponto-final. Depois que ele relia o livro e encontrava ali, no subtexto, nas entrelinhas da ficção, algo que nem ele tinha percebido antes. Algo que nem ele sabia que queria contar. Muitas vezes, achamos que estamos escrevendo apenas uma história de amor, mas, quando terminamos, descobrimos que era uma história sobre segundas chances. Achamos que estamos escrevendo apenas uma história de terror, mas, quando terminamos, descobrimos que era uma história sobre amizade. E muitas vezes, também, achamos que sabemos sobre o que é a história, mas os leitores encontrarão outros significados, lacunas de intenção que estão lá, que nosso subconsciente inseriu, e nem nós mesmos percebemos. A verdade é que a arte é um meio de transporte – onde ela vai nos levar? Não sabemos. Não temos como saber. E também não podemos colocar a carroça na frente dos bois; primeiro, tiramos de nós, depois, descobrimos o significado. E ele vai estar lá. Vai, porque você é um ser humano único, singular. Só você tem a sua vida. Só você viveu as suas experiências. Se 20 escritores receberem a mesma premissa de história para desenvolver, 20 histórias completamente diferentes serão escritas; se 20 pintores pintarem o mesmo quadro, veremos 20 quadros diferentes, porque o que você cria é o que você é. Não tem como fugir disso. Então, querida curiosa, a sua preocupação é válida. Mas, quando você perceber que é impossível não ter algo a dizer, porque arte em si é criar algo a partir de quem somos, você vai deixar de se preocupar com isso – e se conectar muito mais com a sua criação. E isso? Isso o ChatGPT nunca vai conseguir fazer. | | | | | Salvador Dalí, A persistência da memória, 1931 |
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