Caro,


Bom, é assim: arte é um chamado. Sobre isso, eis o que posso te dizer:


✫ Faça arte para você. Não precisa mostrar para ninguém, nem ter pretensões. É normal começar sem saber o porquê, para quê ou o que quer dizer… Isso não importa.


✫ Saiba que é um caminho silencioso e solitário, mas muito gratificante quando você obtém bons resultados. Formar pequenos grupos com colegas é uma alternativa que pode acelerar os processos.


✫ Estude as obras das quais você gosta e sente que te provocam, copiando-as ou fazendo estudos a partir delas – vale tudo.


✫ Procure frequentar o circuito cultural. Se você mora em São Paulo, por exemplo, só na avenida Paulista existem nove centros culturais com entrada franca (o MASP é gratuito às terças-feiras). Nesses centros, você encontrará uma rica programação, que dura de um a três meses. Algumas exposições retrospectivas valem por um curso de pós-graduação.


✫ Quando um artista de quem você gosta está vivo, fique de olho: observe o dia em que ele falará ao público e procure conhecê-lo. Tente visitar seu ateliê e observar seus métodos de trabalho. Veja se ele dá aulas. Eu pedi aulas de gravura e aquarela para o Dudi Maia Rosa depois de ficar encantado com sua exposição no MASP, em 1978. Frequentei-as por dois anos, e nelas conheci muitos colegas, aprendi técnicas e descobri novas maneiras de olhar o mundo.


✫ A respeito da formação em arte, entenda que não existe um único caminho possível. Você pode fazer uma faculdade ou cursos livres em ateliês.


✫ Veja bons filmes, escute boa música, leia bons livros… Nem só de artes plásticas vive o artista plástico.


✫ Ande sempre com bloco e caneta. Sempre que você tiver que esperar por alguém ou alguma coisa, lembre que esse é um bom momento para desenhar, registrar ideias e passar o tempo sem stress.


✫ Arrume um canto em casa para fazer seu ateliê.


✫ Tenha uma pessoa de confiança para te orientar quando sentir que está sem saída (o que pode acontecer muitas vezes).


✫ Lembre-se: Todo dia um traço, dizem os chineses. Nulla dies sine linea, diziam os romanos.


Carpe diem. Siga em frente.


Diego Velázquez, As meninas, 1656

Um livro: Cândido, ou o Otimismo (1759), de Voltaire. Uma aventura filosófica repleta de bom humor.


Um filme: O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla. A colagem pop trash, em preto e branco, que marca o cinema novo paulista.


Um artista: Flávio de Carvalho, desenhista, pintor, arquiteto, dramaturgo, performer, escultor e provocador cultural. Ele foi um movimento artístico em uma só pessoa.


Boa sorte!

Guto Lacaz