Meu caro,


Me perguntaste da última vez como se faz para saber se estamos prontos, se temos capacidade de escrever o que queremos escrever. Quisera eu ter um medidor preciso que me dissesse: em três meses, dois dias e tantas horas, comece a escrever. Ou que a escrita é como o trigo, que se planta melhor entre maio e julho (curiosamente, maio e julho costumam ser meses produtivos para mim, mas creio que tem a ver com o outono e as temperaturas agradáveis). A realidade é que a escrita é como um processo de decantação: a gente vai acumulando ideias, vontades, referências, deixa tudo em repouso até o momento em que a parte mais densa se deposita no fundo, e depois o líquido ou sólido menos denso vai para a superfície e forma uma nata (agora, se a boa escrita é o que vai para o fundo ou a que boia, não me pergunte, minha metáfora termina aí. Até porque não é só a nata que vai para a superfície. Merda também boia).


Algumas ideias demoram mais que as outras, algumas vêm de imediato. Começa com uma imagem, uma sensação, uma vontade. Um meme. Não me refiro o meme-piada, aquelas imagens que a gente envia pelo WhatsApp ou posta nas redes sociais. Não, me refiro ao conceito original do Richard Dawkins, o meme enquanto a menor unidade de uma ideia, o meme que está para a cultura como o gene está para o código genético: um som, um desenho, uma vontade. Ou duas. Comecei a escrever O crime do bom nazista com base em uma imagem e uma vontade. A imagem era a do zepelim voando sobre o Rio de Janeiro. A vontade era a de matar um nazista. Já o meu Tupinilândia nasceu de um sentimento, uma sensação, que os americanos chamam sense of wonder. Aquele que se tem quando se está diante de algo grandioso e maravilhoso, de algo que parece maior que o mundo — e que sempre sinto assistindo a filmes do Spielberg. O tiranossauro entrando em cena pela primeira vez, E.T. voando de bicicleta, Robin Williams descobrindo que consegue voar em Hook.


Mas sim, às vezes a ideia é muito ambiciosa, e aí, sim, sinto que não estou pronto para ela. Sinto que ainda não tenho a capacidade de fazer aquilo que eu gostaria de fazer, de descrever do modo correto aquela cena, aquele personagem, aquele sentimento. Passei anos sentindo isso em relação a uma história, até o dia em que, terminando de ler um determinado livro, pensei: acho que agora sei como colocá-la no papel. O livro em questão era Reparação, do Ian McEwan, que conseguiu me enganar em duas ou três camadas de interpretação num mesmo texto, e me fez perceber que escrever ficção é saber mentir e que não é só o autor que mente criando gente imaginária: também o narrador pode ser um mentiroso e enganar o leitor — contanto que o leitor não se sinta como a vítima de um golpe, e sim como o espectador de um truque de mágica que ele sabe ser falso, mas com o qual se admira mesmo assim.


Algumas ideias parecem ambiciosas demais. Paciência. Quando a gente estabelece para nós mesmos um parâmetro muito alto, o nosso fracasso se dá num patamar muito mais elevado do que o parâmetro de sucesso para outros. E como me disse certa vez o grande Luiz Antonio de Assis Brasil: ninguém senta na frente do computador dizendo "Vou escrever um livro que seja mais ou menos". A ideia sempre é escrever o melhor texto possível, o melhor já escrito até hoje sobre aquele ponto em específico. O fracasso se torna inevitável, a tentativa é tudo.


Falei bastante e tenho a impressão de que não disse nada. Paciência. Nem tudo precisa fazer sentido para todo mundo. O que, aliás, foi outra coisa que aprendi com o tempo: cada um cria seu próprio "paracosmos", seu mundo imaginário onde pode exercer o controle absoluto que lhe falta no mundo real. Somos todos pequenos deuses dentro desse universo. Ou pequenos tiranos. Não se pode escrever pensando em outro leitor que não seja nós mesmos. Cada escritor escreve para si próprio e torce para que mais alguém no mundo goste das mesmas coisas. Espero que isso tenha feito tanto sentido para você quanto faz para mim.

 Xadalu Tupã Jekupé, Nheru Apy Tekoaxy, 2022.

Um livro: A árvore mais sozinha do mundo (Todavia, 2024), de Mariana Salomão Carrara. Uma família de plantadores de tabaco no sul empobrecido se vê às voltas com sua lenta desintegração conforme o pai vai sendo tomado pela depressão provocada pelos agrotóxicos, e as filhas sonham com futuros melhores. Com um detalhe: a história é narrada pela filosófica árvore do quintal, por um esnobe espelho português da sala, e pela ingênua e otimista caminhonete rural. Um tour de force narrativo.


Uma artista: Xadalu Tupã Jekupé (Alegrete, 1985). Certa vez, vi numa parede no centro de Porto Alegre um grande adesivo dizendo "área indígena". Custei a perceber que não era uma marcação oficial (deveria), e sim um lembrete de que, afinal, toda a cidade fora construída sobre área indígena. Xadalu usa elementos da serigrafia, pintura, fotografia e objetos para abordar em forma de arte urbana o tensionamento entre a cultura indígena e ocidental nas cidades, e gosto particularmente do modo como ele traz a cosmovisão guarani nas suas obras.


Um filme: Frankenstein (2025), de Guillermo del Toro. Cada momento desse filme é como uma pintura viva, e raras vezes um filme consegue ser, ao mesmo tempo, tão esteticamente lindo e tão profundamente filosófico. Del Toro tira o horror da superfície (o monstro em si é belo como uma ilustração acadêmica de anatomia) e o coloca na alma: qual a responsabilidade de quem cria com aquilo que criou? Qual o propósito de se existir? Como continuar existindo sem ter um propósito? Certamente uma das melhores, senão a melhor, adaptações já feitas da obra de Mary Shelley.


Um grande abraço,

Samir