Querida,


Nesses últimos tempos, tenho recordado com mais frequência dos que partiram. Partir não é sobre ir embora, mas permanecer para sempre. 


Sempre me senti como uma testemunha dos meus ancestrais e de todos aqueles que cruzaram meu caminho. Neta de pessoas muito antigas, nascidas em 1916, 1895, períodos em que o mundo era muito diferente. Sou uma niteroiense de 1989, logo depois da Constituição Brasileira, que iniciou tantas mudanças. Herdei da minha avó Tupinambá o dom da memória, vivenciando uma cosmopoética dos sentidos fruto de outras formas de percepções e o desejo profundo de um bem viver coletivo, em que se caminha compartilhando saberes e energia, e em que nós não estamos separados dos outros ou da natureza, como diz a ciência ancestral dos nossos antigos. Todos estamos ligados por teias invisíveis em que o mistério habita, e o que ele é senão a vida? Em Tupi, Tekobé. 


Aprendemos desde pequenos que o saber é compartilhado, mas o mistério não. Quem revela o mistério não o sente ou conhece. Ela, minha avó Emília, falava que era como "caritas": precisava compartilhar energia, estar em movimento no mundo. Na adolescência, eu passei pelo aprendizado. O que não é compartilhado explode dentro de nós e adoece. Hoje, trabalhando com minhas obras artísticas, penso que tudo é encantaria e que a arte é pura alquimia em ação, com um poder profundo de transformar a partir do saber e das coisas que somos capazes de trazer por meio delas. O que criamos também é alimento para outros. Gosto de trabalhar com arte sônica e também poesia, principalmente por causa de como o som envolve outros campos sensoriais. Tenho lido Dénètem Touam Bona, Verenilde S. Pereira, Édouard Glissant, Gaston Bachelard e Ailton Krenak.


No Observatório de Ecos, eu escutei o Marcelo Yuka cantar, na época que trabalhei com ele em 2014, sua música "A carga". O refrão dizia: "Era tudo a carga e o medo não media a vida". Eu nunca mais esqueci. Ele era muito amigo do poeta Waly Salomão, e o nome do estúdio vinha dessa visão sobre os ecos como algo muito mais profundo, além do som, a famosa poesia "Câmara de ecos": "A linha de fronteira se rompeu entre o meu ser e o ser alheio". Eu conseguia sentir que era sobre o poder do afeto e como, por meio dele, é possível despertar em outros seres consciência e tantas coisas inimagináveis. Marcelo olhava seu estúdio como uma fábrica de sonhos. Nessa época, ele me ensinou que nosso trabalho era com sonhos, nossos e de outras pessoas. Eu havia criado com outros realizadores indígenas, um ano antes, uma web rádio indígena, e batizei ela com um nome em Tupi, que significa traduzido nós e também você. O que Marcelo me mostrou foi fundamental para começar a criar as primeiras listas de divulgação de músicos e artistas indígenas difundidas na rede. Eu entendi que havia um cenário invisibilizado em relação aos artistas indígenas no Brasil muito grande. Eu buscava fazer tudo que não encontrava em nenhum outro espaço de comunicação, e com um tempo passei a divulgar também o trabalho de realizadores indígenas de outros países. O trabalho foi pioneiro no Brasil, mas em outros países já havia uma ampla divulgação de artistas indígenas. Depois, outros canais de comunicação nacionais passaram a realizar as mesmas pautas e listas. Foi uma grande alegria.


Comecei a trabalhar com curadorias, festivais e diferentes projetos, e em tudo eu conseguia ver a potência da comunicação quando rompemos não apenas as fronteiras coloniais, mas também as do nosso próprio pensamento. São 21 anos trabalhando com comunicação e aprendendo que ela é tudo: história, memória, audiovisual, curadoria e educação; também sonho, música, dança e coisas impossíveis de traduzir. Em 2024, criei com amigos o Guanabara Pyranga: Encontro de Culturas da Guanabara.


A confluência que alertou Nego Bispo também está em tudo, da mesma forma que Yakuy Tupinambá fala sobre nossos livros serem as folhas das árvores. Uma das experiências mais lindas de 2025 foi atravessar a Baía de Guanabara na barca por horas com Ailton Krenak e Mateus Aleluia, entendendo o oceano como um grande ancestral. Cantei em Tupi antigo sobre o mar ser como o céu para meu povo e o céu ser nosso mar, falei da sede dos espíritos e das histórias de meus mais velhos. E que Guanabara foi formada com Itaipu, palavra em Tupi que significa o som da água do mar batendo nas pedras. Guanabara é um útero sagrado que habita muitos mundos. O mar é também memória. 

Ziel Karapotó, Cardume II, 2024

Um livro: Tem estado constantemente em meu pensamento Um rio, um pássaro (2023), do Ailton Krenak, publicado pela Dantes Editora. O rio aparece como entidade viva, portadora de memória e história, enquanto o pássaro simboliza a escuta, o deslocamento e a possibilidade de outros modos de ver e narrar o mundo.


Um artista: Acho magnífico o trabalho do Ziel Karapotó, indígena do Nordeste, do povo Karapotó. Se destaca por sua relação com a natureza, os encantados, e denuncia os impactos do colonialismo e do extrativismo por meio de diferentes linguagens, como instalação, pintura, performance e ações ritualísticas. Ele ativa a arte como ferramenta de resistência, cura e retomada simbólica do território. Seus trabalhos não se limitam ao objeto artístico: eles operam como gestos políticos e espirituais, convocando o corpo, a terra e a coletividade como protagonistas do processo criativo.


Um filme: Indian Horse (2017, direção de Stephen Campanelli), baseado no romance de Richard Wagamese, do povo Ojibwe. Assisti esse filme há algum tempo e me lembrei muito dos traumas coloniais indígenas do Brasil, principalmente em relação aos internatos católicos.


Um grande abraço,

Renata Tupinambá

@aratykyra