Olá, amigo,


Faz tempo que não escrevo uma carta. Talvez tenha feito algumas nas aulas de inglês, para saber onde colocar o cabeçalho, que frases usar para abrir, como me despedir informalmente etc. Depois, escrevi algumas para agentes literários, tentando explicar por que o autor x não estava vendendo exatamente como o esperado. Essas não costumam ser muito felizes. Mas de ter escrito uma carta pessoal, não me lembro.


Queria falar duas coisas sobre o processo da escrita, ou pelo menos como eu a sinto hoje.


A primeira é que, para escrever, a gente precisa estar no texto. Demorei muito para perceber isso e ainda estou tentando entender o que significa. Fiz meus romances por muitos anos como se fossem uma carta formal a um agente. Pensava em cada frase, tirava todas as repetições de palavras e procurava não começar dois parágrafos seguidos do mesmo modo (isso eu ainda faço) pra atingir um efeito que eu lia em autores que admirava na época. 


Montava uma estrutura toda parafusada, entremeada de tiradas irônicas, e, à sombra desses autores, debaixo de uma estrutura tão pesada, eu sumia. É fácil sumir dentro de seu próprio texto. 


Passava anos trabalhando de forma meticulosa num livro, planejava os efeitos e não me dava conta de que, por trás de tantos artifícios, o texto parecia um salmão congelado. Eu tinha virado um fantasma dentro da minha própria escrita. Devia tentar escapar desse modelo e buscar algo que fosse meu. 


Decidi planejar menos e contar com um certo acaso, um certo componente subjetivo que eu deixava entrar na narrativa. Cheguei a perder um livro inteiro assim, ensaiando coisas tão díspares que o texto não tinha como ser arrumado. Mas nada é realmente perdido quando se escreve; a gente está sempre aprendendo alguma coisa.


Estar no texto não é algo literal, como fazer autoficção. É mais uma forma de deixar um canal aberto enquanto se escreve, captando sensações e experiências que vão dando outras camadas à história.


E isso me leva ao segundo ponto: para estar no texto, a gente precisa de tempo. Não dá pra escrever com pressa, pensando em quem vai convidar no lançamento. Você até pode digitar com fúria, numa sentada só, e deixar essa coisa que a gente não sabe bem de onde vem, essa coisa xamânica, descer no papel. Mas depois fatalmente vai ter de voltar e dar um tapinha, inserir outras coisas, testar ideias e, se quiser, digitar outras coisas com fúria. Mas não adianta enviar o texto para o editor logo depois do primeiro transe. Não recomendo. É bom deixá-lo parado na gaveta, dar um mês e ler. Algumas coisas vão aparecer aí, e você vai precisar rasurar umas partes e escrever de novo.


Acho que a escrita é o caminho. É uma descoberta de como escrever e no que consiste a nossa forma de escrever, que é algo anterior ao estilo: como a gente se coloca na página, como aprende subjetivamente com o que escreve. A gente faz e muda, depois reescreve e desfaz, depois depura, e, ao longo dos anos, vamos fazendo uma coisa que em algum momento pode se tornar nossa. Ao escrever, tentamos encontrar quem a gente é.


Will Barnet, Edge of the World, 1980

Um livro: O tumor, de Ibrahim Al-Koni, com tradução do árabe de Mamede Jarouche (Tabla, 2022): uma espécie de alegoria distópica sobre a corrupção do poder. Um homem veste uma túnica que lhe é dada como forma de autoridade, mas a túnica se apossa de sua pele e aos poucos o carcome por dentro. Estranho, inesperado e de uma editora muito legal, focada na publicação de autores de língua árabe.


Uma artista: PJ Harvey em seu primeiro disco, Dry (1992). Nas palavras dela: “Foi a primeira oportunidade que tive de gravar um disco e achei que seria a última. Então, me dediquei completamente a ele. Foi um disco muito extremo.” No Spotify, dá para encontrar a edição demo, com algumas versões melhores que as do álbum.


Um filme: Garota sombria caminha pela noite (2014), escrito e dirigido por Ana Lily Amirpour (EUA/Irã). É descrito como “o primeiro western iraniano de vampiros”, mas não sei se é bem isso. Tem músicas que remetem ao Sergio Leone e uma história de amor com uma vampira reservada, que gosta de rock, na periferia violenta de uma cidade no Irã.


Abraço,

Marcelo