| estava agora na bienal de são paulo, e quero voltar com você pra vermos juntos. tem tantos trabalhos que envolvem manualidades, técnicas de artesanatos, saberes tradicionais normalmente vistos somente como decorativos ou funcionais. uma bienal bem analógica, com a presença forte do gesto. várias vezes, de longe, eu via algum material e, ao me aproximar, ele mudava completamente: uma pintura enorme virou tapeçaria, uma terra argilosa se transformou em crochê, uma árvore cujos galhos viraram milhares e milhares de miçangas, uma seda tecida de fios de cobre… era incrível chegar perto dos objetos e enxergar outra coisa, captar algo da matéria que, num susto, rasgava as projeções e me jogava no real. me emocionei várias vezes. poder ver pelas impressões mais do que pela memória, se afastar um pouquinho dos trajetos mentais que reconhecem, definem e analisam, e abrir espaço pro novo. experimentar ver por uma operação mais sensível do que racional. me emociona porque sinto que esse é um lugar forte da criação. quando o gesto é guiado por algo que ainda está emergindo e que vai se fazendo, se desenrolando à medida que o gesto segue. quando ainda não se reconhece nem se projeta nada. minha formação é cartesiana, escola francesa de pensamento, então, pra mim, acessar isso é bem raro. mas instiga a confiar no valor daquilo que está emergindo e que ainda não tem forma nem nome. nesse sentido, pouco importa o quê, importa o como. importa o processo, a insistência, importa o elã vital e as brechas que se formam. pode se dar no fazer de uma pintura, uma cerâmica ou uma dança, mas também de uma comida, uma transa, uma caminhada… as categorias definidas vão por água abaixo. são fracas diante desse momento de faísca da criação. isso me alegra muito porque, por mais difícil que seja, e por mais esforço, tempo e disposição que estejam em jogo, é da ordem do possível. não tem pré-requisito, não exige primeiro dominar uma técnica, seus saberes e histórias, pra depois, lá na frente, quando tudo estiver mapeado, começar a criar. não que isso não tenha valor, tem e é até muito bem-vindo, mas não é necessário. a criação se dá por outras veredas. pode ser hoje e agora, não precisa de promessas. | | | | | Paula Rego, A artista em seu estúdio, 1993. |
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