| Neste ano em que estamos, eu venho pensado muito sobre o que significa amadurecer. Talvez seja o peso, ou o presente, da sabedoria que vem com o tempo. Eu sempre acreditei na bondade das pessoas. Mas este ano, especialmente, me mostrou que nem toda doçura é genuína e que, às vezes, reorganizar o lugar das pessoas na nossa vida é um ato de amor próprio, não de frieza. Tenho sentido uma estranheza crescente pela forma como vivemos. Moro em um apartamento e, por uma parede fina, divido o mundo com alguém que eu talvez nunca venha a conhecer. E me pergunto: quando foi que isso passou a parecer normal? Partindo dos nossos antepassados, trago o exemplo dos povos indígenas que vivem em tribos, e não por acaso. A vida em comunidade é parte da nossa natureza. O ser humano é natureza, mas a gente esqueceu disso. Passamos a falar em “querer viajar para a natureza” como quem visita algo externo, quando, na verdade, nós somos ela. Essa separação entre o humano e o natural não passa batida, assim como me incomoda a separação entre o humano e a arte. Quando foi que arte virou um “mercado”? Quando foi que ritual virou moldura? Os indígenas não criavam cocares para exposições, eles os criavam como parte da vida, do espírito, do rito. E talvez por isso tudo fazia mais sentido: viviam em rede, em cooperação, como as formigas que constroem juntas e conhecem o limite do outro. Estudar os formigueiros é um conhecimento valioso. Penso que esse meu incômodo nasceu de um momento em que me bateu um desamparo, em que esperei de algumas pessoas o que elas não puderam, ou não quiseram, oferecer. E está tudo bem, todos estamos cansados e ocupados. Mas percebi que, enquanto eu parava tudo pelos outros, deixava de me escutar. Tenho aprendido, com dificuldade, a dizer “não”. A entender que um “não” também pode ser um gesto de respeito. O que me entristece é perceber o quanto as relações têm se tornado superficiais. As pessoas vivem para as outras, e não com as outras. Publicam o que sentem antes de sentir de verdade. A intimidade virou conteúdo. Eu mesma me sinto desconfortável nas redes sociais, como se estivesse espiando pela janela do outro, sem saber mais como bater na porta. Eu só gostaria de viver num mundo em que o básico fosse funcional, que existisse. O “básico” virou “impossível”, não sei. Por exemplo: ter vizinhos que cooperem, amigos que sejam presença e uma vida com mais rituais, mais pausas, mais humanidade. Pode ser que meu texto agora tenha virado um convite para lembrar que ainda somos natureza. E que a arte, a amizade, o cuidado e a comunidade não são partes separadas da vida: são o que nos mantém vivos. Nas minhas pinturas, existe sempre uma presença do vazio. Com o tempo, tenho entendido que o vazio não é o nada. O vazio é a ausência de alguma coisa; às vezes, um desamparo. Mas também pode ser espaço, pausa, respiro. Lacan dizia que o vazio é o lugar onde o desejo habita. É nele que surge o impulso de criar, de amar, de buscar sentido. O vazio, para ele, é o núcleo da experiência humana. Não algo a ser preenchido, mas reconhecido. E talvez por isso eu pinte. Porque o vazio, para mim, é também um território de encontro: entre o que falta e o que ainda pode nascer. Se você não desistiu e leu até aqui, gostaria que soubesse que escrevo esta mensagem com amor e sensibilidade. Não para gerar pessimismo ou negatividade, muito pelo contrário: escrevo para que a gente não perca o que nos torna humanos. Para que saibamos dizer “não” quando necessário, mas que o “não” venha por motivo digno, e com respeito de quem o diz e de quem o recebe. Que a gente não fale sobre os outros de forma gratuita. Que a individualidade seja preservada e que, ainda assim, possamos andar em grupo. Através das minhas palavras, busco encostar na humanidade, na lealdade, nos valores estruturais. Sem essas forças de base, nada se sustenta. Como artista e como ser pensante, acredito que o único caminho possível está na aproximação, no encontro real, sem artifício. No toque que é presença, na palavra que escuta, no gesto que reconhece o outro. A arte, a amizade e o amor não são adornos da vida, são o que sustentam a estrutura essencial. Pertencemos uns aos outros, como partes de um mesmo organismo. E talvez amadurecer seja isso: deixar de buscar flores e frutos o tempo todo e aprender a cuidar das raízes. Enfim, a minha intenção com este texto é dividir algo em que eu realmente acredito e que, talvez, faça sentido para além de mim. É uma tentativa de plantar uma semente de consciência, daquelas que a gente espalha quase sem perceber, mas que podem germinar em outros. No fim das contas, não existe “eu” sem o “outro”. A gente só existe quando reconhece que cada essência é única, e justamente por isso precisa ser respeitada. As discussões são necessárias, sim, mas só valem a pena quando o propósito é encontrar um ponto comum, e não vencer uma disputa. Quando o foco é concessão, e não competição. “Para que uma guerra seja justa, é preciso uma causa justa.” “It takes a village to raise a child.” [“É preciso uma aldeia para criar uma criança.”] | | | | | David Hockney, A bigger splash, 1967. |
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