Querida,


Quando recebi o convite para escrever esta carta, não precisei pensar muito. A verdade é que, neste momento da minha vida, não existe outro assunto que me atravesse tanto quanto a maternidade. Tudo que sinto, tudo que penso, tudo que crio passa por esse mesmo filtro delicado e avassalador. Então, é sobre isso que vou escrever hoje — sobre como ser mãe mudou a forma como eu existo no mundo.


Escrevo enquanto meu filho dorme ao meu lado, com aqueles suspiros leves que só os bebês fazem — um som que, de algum jeito, me diz mais sobre mim do que qualquer palavra que eu consiga colocar no papel. Eu achava que entendia o que era silêncio, pausa, delicadeza. Mas nada me preparou para essa nova forma de existir que começou quando me tornei mãe.


Talvez por isso eu tenha adiado esta carta. Não por falta de vontade, mas porque a maternidade abriu um território tão vasto que ainda estou aprendendo a caminhar nele. Mesmo agora, enquanto escrevo, sinto que cada palavra precisa ser escolhida com uma honestidade diferente — como se tudo em mim tivesse ganhado novas camadas de sensibilidade.


Antes do Thomás nascer, eu era movida por uma produtividade quase instintiva. Criava muito, rápido, com intensidade. Minha vida era marcada por prazos, ideias e projetos que preenchiam o tempo de um jeito contínuo. Hoje, nada disso desapareceu — mas mudou de forma. Agora, o tempo é mais curto, mais fragmentado, mais precioso. Preciso me adaptar aos intervalos possíveis, aos cochilos inesperados, às pausas que não são mais negociáveis.


E descobri que criar dentro desse novo ritmo é um exercício de humildade. É aceitar que a arte não nasce apenas da disciplina, mas também da entrega ao que a vida nos pede. Às vezes, é uma pincelada entre duas mamadas. Às vezes, é uma ideia anotada com a mão tremendo de sono. E, ainda assim, existe algo profundamente verdadeiro nisso — porque criar com pouco tempo, mas com muito sentimento, é uma forma de amor.


A maternidade, ao contrário do que eu temia, não me tirou nada. Ela me alargou. Esticou minhas bordas por dentro, abriu espaço para uma sensibilidade nova — mais vulnerável, mais atenta, mais inteira. Descobri que criar não é só produzir; é registrar. É memorizar. É respirar fundo e, mesmo exausta, encontrar beleza nas coisas que antes eu deixava passar.


Se eu pudesse te deixar um conselho, seria este: permita-se mudar. Permita que o que você vive — seja a maternidade, uma perda, um amor, uma alegria — altere o jeito como você cria. A arte não exige constância, exige verdade. E a verdade, às vezes, nasce justamente quando a gente se permite ser atravessada pelo que não estava nos planos.

Edward Hopper, Hotel Room, 1931

Um livro: Água fresca para as flores, de Valérie Perrin. Não só por eu ter ilustrado a capa, mas porque a história me tocou de maneira delicada e duradoura.


Um artista: Vincent van Gogh. Porque, mesmo conhecendo seu trabalho a vida toda, ainda me emociono como se fosse a primeira vez — suas pinceladas e cores vibrantes sempre me lembram do poder da sensibilidade.


Um filme: Dias perfeitos (2023), de Wim Wenders. Um lembrete sensível sobre presença, simplicidade e atenção aos pequenos gestos do cotidiano.


Com carinho,

Brunna